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DSRA NO CANE CORSO: PORTADORES DEVEM SER RETIRADOS DA REPRODUÇÃO?

Depois de compreender como funciona a herança autossômica recessiva da DSRA, surge uma questão prática para criadores e pesquisadores:

O que fazer quando um cão é identificado como portador da mutação?

A resposta envolve genética de populações, preservação da diversidade genética e controle de doenças hereditárias.
 

Relembrando a herança genética

Na DSRA, o gene mutado é representado pela letra b.

As combinações possíveis são:

  • BB — cão geneticamente normal;

  • Bb — cão portador, sem manifestar a doença;

  • bb — cão afetado.

Os cães portadores permanecem clinicamente saudáveis, mas podem transmitir a mutação aos seus descendentes.
 

O cruzamento entre um cão normal e um portador

Quando um cão BB é acasalado com um cão Bb, o resultado esperado é:

  • 50% BB (geneticamente normais);

  • 50% Bb (portadores).

Nenhum filhote desenvolverá a doença, porém metade continuará carregando a mutação genética.
 

O cruzamento entre dois portadores

Quando dois cães portadores (Bb × Bb) são acasalados, as probabilidades estatísticas são:

  • 25% BB — normais;

  • 50% Bb — portadores;

  • 25% bb — afetados pela DSRA.

Esse é justamente o cenário que possibilita o nascimento de cães acometidos pela enfermidade.
 

Quais estratégias podem ser adotadas?

Independentemente da estratégia escolhida, existe um ponto praticamente consensual:

A realização de testes genéticos é indispensável.

Sem conhecer o status genético dos reprodutores, torna-se impossível controlar a disseminação da mutação.

A partir dessa informação, diferentes programas de criação podem adotar estratégias distintas.
 

A recomendação apresentada por alguns pesquisadores

Um artigo publicado por pesquisadores da República Tcheca, após o primeiro caso confirmado de DSRA naquele país, defende uma estratégia bastante rigorosa.

Segundo os autores, o caminho mais seguro para eliminar completamente a mutação da população seria:

  • testar geneticamente os reprodutores;

  • retirar os cães portadores dos programas de reprodução.

Sob essa perspectiva, utilizar um portador mesmo cruzando-o com um cão normal mantém a mutação circulando na população, ainda que sem produzir cães afetados naquela geração.
 

Outras estratégias discutidas na genética animal

Na genética de populações também existe outro ponto de vista.

Em algumas raças caninas com mutações raras, especialistas optam temporariamente por utilizar determinados portadores de elevado valor genético, sempre cruzando-os exclusivamente com cães livres da mutação e testando toda a descendência.

Essa estratégia busca reduzir a frequência do gene mutado sem provocar perda excessiva da diversidade genética da raça.

O método adotado depende da frequência da mutação na população e dos objetivos de cada programa de conservação genética.
 

O papel dos testes genéticos

Independentemente da estratégia utilizada, os testes genéticos representam uma das maiores ferramentas disponíveis atualmente para a criação responsável.

Eles permitem:

  • identificar portadores assintomáticos;

  • evitar o nascimento de cães afetados;

  • orientar programas de melhoramento genético;

  • preservar a saúde das futuras gerações.

Quanto maior a adesão dos criadores aos testes, maior será a capacidade de controlar a disseminação da DSRA.
 

Ciência, transparência e responsabilidade

O surgimento da DSRA evidencia a importância da colaboração entre criadores, universidades, laboratórios e médicos-veterinários.

A preservação do Cane Corso depende não apenas da seleção morfológica ou funcional, mas também do conhecimento genético acumulado pela ciência.

Discutir essas informações de forma aberta e fundamentada representa um passo importante para a construção de uma criação cada vez mais responsável.
 

Quer conhecer esse tema em maior profundidade?

No livro O Cane Corso Entre Séculos – Uma Jornada Através da História, a genética do Cane Corso é abordada de forma ampla, incluindo doenças hereditárias, mutações, seleção genética e preservação da diversidade da raça.

Com 544 páginas, a obra reúne um dos mais completos estudos publicados em língua portuguesa sobre a história, genética e funcionalidade do Cane Corso Italiano.
 

Referência: Korec E., Elblová P., Králová J. The First Confirmed Case of Dental-Skeletal-Retinal Anomaly (DSRA) in the Cane Corso Italiano Breed in the Czech Republic. Approaches in Poultry, Dairy & Veterinary Sciences, 2022.

Trecho de artigo científico sobre DSRA no Cane Corso.jpg
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