Cane Corso Italiano e Americano: a genética mostra diferenças?
Uma dúvida frequente entre criadores e estudiosos do Cane Corso diz respeito às diferenças genéticas entre as populações italiana e americana. Alguns defendem que apenas o Cane Corso americano apresentaria maior mistura genética, enquanto a população italiana já constituiria um grupo filogeneticamente isolado.
Mas o que mostram, de fato, os estudos científicos?
Grande parte dessa discussão surgiu a partir da interpretação de dois importantes trabalhos publicados sobre a genética da raça, em 2016 e 2018.
O estudo de 2016 demonstrou que os exemplares italianos analisados apresentavam maior proximidade genética entre si quando comparados aos exemplares norte-americanos. Entretanto, essa maior coesão não significa, por si só, que a população italiana forme um grupo monofilético ou geneticamente isolado.
Na filogenia, indivíduos agrupados por maior semelhança genética não representam necessariamente uma população evolutivamente exclusiva. Para que isso ocorra, é necessário que todos os indivíduos descendam de um ancestral comum exclusivo, formando um clado próprio.
Essa distinção é fundamental para evitar interpretações equivocadas.
O estudo publicado por Talenti et al. (2018) ampliou significativamente a quantidade de marcadores genéticos analisados e incluiu exemplares provenientes tanto da Itália quanto dos Estados Unidos.
Os resultados mostraram que a população moderna do Cane Corso, considerada em seu conjunto, não forma um clado monofilético exclusivo. Os exemplares italianos e americanos aparecem relacionados entre si e próximos ao Mastim Napolitano, evidenciando uma estreita afinidade genética entre essas populações.
Além disso, foram identificados sinais de compartilhamento genético histórico com outras raças molossoides, resultado compatível com o processo de reconstrução ocorrido durante a formação da população moderna.
É importante destacar que o estudo de 2018 não contradiz o trabalho publicado em 2016. Pelo contrário, amplia suas conclusões utilizando uma base de dados mais robusta e maior resolução genômica.
Enquanto o primeiro estudo demonstrava diferenças no grau de homogeneidade entre as populações analisadas, o segundo permitiu compreender de forma mais abrangente as relações filogenéticas existentes dentro do Cane Corso moderno.
Por esse motivo, afirmar que apenas a população americana seria parafilética não encontra respaldo nas conclusões apresentadas pelos autores. A análise filogenética considera a população moderna como um todo, não estabelecendo uma separação entre um grupo italiano monofilético e outro americano parafilético.
Esse exemplo demonstra a importância de interpretar artigos científicos em seu contexto completo. Termos como clado, monofilia, parafilia e introgressão genética possuem definições específicas na biologia evolutiva e não podem ser utilizados como sinônimos de maior ou menor semelhança genética.
Compreender esses conceitos permite interpretar corretamente os estudos científicos e evitar conclusões que não são sustentadas pelos próprios dados apresentados.
Este artigo apresenta uma síntese do tema.
No livro O Cane Corso Entre Séculos – Uma Jornada Através da História, com 544 páginas, esse assunto é analisado em profundidade, reunindo estudos genéticos, análises filogenéticas e documentos históricos que ajudam o leitor a compreender a evolução do Cane Corso moderno sob a perspectiva da genética de populações.